Vivendo a crise dos 20 anos.
Narrando fatos, acontecimentos e pensamentos, reais ou não, diretamente do outro lado do mundo.
Tendo a cada dia a certeza de que há algo de surreal no que se costuma chamar de realidade.
Portadora do terrível vício de ser absurdamente prolixa em toda e qualquer narração, oriunda de toda e qualquer origem.
Sofrendo da ânsia de ser literata; é no fundo uma escritora frustrada. E uma camaleoa literária.
Tem plena consciência de que há muito (e muito pouco) a ser feito.

Prazer, sou Tatiana Leutwiler!


***E atenção: Explicações sobre o título do blog, procure o post de 07/06/07. Leiam antes de me corrigirem.***



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Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

[Pequeno desabafo]

Dizem que faz bem pôr o que faz mal para fora. Vomitar palavras, por assim dizer.

Verdade que estou cansada. Magoada. Triste. Quase infeliz.

Porque meu ascendente em escorpião me faz excluir pessoas indesejadas da minha vida com a mesma facilidade de quem põe o lixo para fora.
Agiu de uma forma que feriu todos os meus princípios básicos para ter alguém em minha vida? Amarro num saco preto e coloco na rua para a coleta. Nem mesmo penso na possibilidade de reciclagem. Reciclar pessoas é cometer os mesmos erros duas vezes, é sintoma máximo da burrice.

Por incrível que pareça, não guardo rancor. Minha natureza leonina e ensolarada me impede de odiar alguém por tempo indefinido. Minha raiva, meu ódio, seja o que for, tem sempre data de validade.
Mas como eu dei shift+del, recuperar dados de alguém que foi excluído é possibilidade nula.

E talvez por isso eu não consiga entender por que os outros não têm a capacidade de fazer isso. De simplesmente deletar quem fez mal, seguir a vida e nunca mais olhar para trás, nunca pensar em como poderia ter sido diferente.

E por não conseguir entender, não consigo aceitar. Não consigo aceitar que na segunda-feira alguém me diga "Tal pessoa nunca valeu a pena em sentido algum, estou excluindo-a da minha vida e peço desculpas se alguma vez fiz parecer que esta pessoa era mais importante para mim do que você" para na quarta-feira voltar a ser amigo da pessoa e na sexta, incomodado por meus questionamentos, diga "Eu gosto desta tal pessoa e você não tem nada a ver com isso, então nunca mais toque no assunto".

Certo. Não toco no assunto.

Mas isto me mata.
Me mata.
Aos poucos.
E dolorosamente.

Meu ascendente em escorpião quer vingança.
Meu sol em leão quer enterrar os dentes em carne viva e estraçalha-la.
E eu só quero que nada mais me incomode.
Só quero poder terminar um dia sem ter vontade de matar alguém.
Só quero conseguir dormir tranqüila à noite, sem este ódio me estrangulando.

Isso me faz mal, como faz!











E me leva a olhar mais uma vez para o Shift+Del ali no canto da minha cabeça.

Você tem certeza de que deseja excluir permanentemente este arquivo?
[Sim] [Não]

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 08:45

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

[Palavras, palavras e palavras...]

Certamente coisas sem explicação seriam vistas por debaixo daquela nuvem de fumaça, caso a fumaça em si não fosse não espessa.
Era a certeza da ausência de presenças – faça isto quanto sentido possa vir a fazer – que trazia a insegurança quanto ao pretérito imperfeito do futuro mais-que-bem-passado. Como um filé ao molho madeira esfriando ao tiquetaquear do relógio de parede.
Foi um gato correndo sobre as teclas empoeiradas de um piano desafinado. Foi a mosca batendo irritante e constantemente no vidro da sala, como quem crê que tentando-se com fé todos os obstáculos podem ser vencidos.
Aquela pessoa, homem ou mulher, sentada de pernas cruzadas no chão, correndo os dedos pela máquina de escrever, sem real consciência do que era impresso na folha de papel. E era o som das teclas batendo ritmicamente, em uma harmonia com a torneira pingando na pia da cozinha.
Não haveria mais sentido. Mas nunca realmente houvera. Se o teto virasse o chão em que a pessoa estava sentada, faria isso alguma diferença? Se na lareira crepitando ao seu lado direito passassem a dançar labaredas cintilantes em tons de azul e cor-de-rosa, qual seria o peso exato que isto teria sobre a relação indivíduo/mundo ao seu redor? E quem em sã consciência ousaria realmente afirmar com real convicção que o chão não era o teto e que na lareira não dançavam labaredas cor-de-rosa?
Mas havia um som. E eram vários. Foram inúmeros sons espalhados ao redor da casa, em seu interior e no interior daquela pessoa que febrilmente escrevia, sem poder ter certeza de que as palavras impressas na folha à sua frente pertenciam a si mesmo ou a qualquer outra pessoa que pudesse estar ali, agora mesmo, em seu lugar ou em qualquer outro lugar do mundo!
Outro lugar do mundo... Sim, haveria então outro lugar no mundo que não aquele em que a pessoa estava? Sim, certamente haveria, embora aquela pessoa não pudesse afirmá-lo sem correr o risco de perjúrio. Afinal, que certezas poderia ter uma pessoa sentada no chão de pernas cruzadas escrevendo palavras que talvez não fossem nem mesmo suas?
Palavras, palavras e palavras... Talvez fosse Hamlet ou Telmah, não saberia dizer e tampouco faria diferença se soubesse. Qual seria a razão daquilo tudo, quais seriam os tipos de racionalização que aquela pessoa sentada de pernas cruzadas poderia ter?
E eram respostas vestindo máscaras de perguntas. Mas não seriam todas assim? Quem, afinal, faz perguntas sem poder visualizar qual será a resposta? Seria como dar um passo rumo a um abismo escuro, como poderia saber se encontraria a ponte?
As palavras que não eram suas... O som que era vários e que eram um só habitavam o ambiente, acompanhados pelo miado baixo do gato querendo atenção.
E foi assim que, deixando de lado a máquina de escrever e esticando as pernas, a pessoa se levantou e foi afagar o gato.

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 08:53

Sábado, Dezembro 06, 2008

[A Janela da Torre do Castelo de Renorah]

Ah, o Reino de Renorah e suas Colossais Muralhas de Vidro...
Debruçada na janela de seu quarto na torre mais alta do castelo milimetricamente posicionado ao centro de Renorah, a Rainha Desvairada suspirou. Andava solitária desde a manhã em que seu conselheiro, o Gato de Sapatilhas de Balé, desaparecera porta afora e nunca mais voltara.
A Rainha Desvairada observava as casas construídas ao redor do castelo. Pareciam minúsculas àquela distância. Refletidas nas retinas de seus olhos extremamente azuis, as casas pareciam guardar segredos aos quais a Rainha jamais teria acesso. Não que ela não pudesse, num rompante de lucidez, mandar escreverem uma medida que obrigasse todos os seus milhares de súditos entregarem os segredos de suas casas logo abaixo dela, no saguão principal do castelo.
Mas ela simplesmente jamais o faria. Podia ser desvairada, absolutista, rainha elevada à condição divina, mas jamais seria maquiavélica. Isso iria contra seus princípios, se é que ainda os tinha.
A Rainha deu um leve sorriso ao lembrar de seu Gato de Sapatilhas de Balé, tão fiel conselheiro, a lhe dizer como numa visão: "E virá o dia, minha Rainha, em que teus princípios e certezas já não terão a menor importância diante de ti."
Sim. Podia ser, a Rainha sabia. Esforçando-se um pouco além, poderia quase ver a si mesma ordenando seus súditos em uma fila que percorreria toda a extensão das Colossais Muralhas de Vidro, obrigando-os a abrir a seu conhecimento todos os mais profundos segredos de suas casas.
Ajeitando seus longos cabelos dourados, a Rainha deixou estes pensamentos se esvaírem. Não havia motivos para pensar no futuro, ela sabia.
Cantarolando uma canção infantil sobre ruas e pedrinhas coloridas, ela decidiu voltar suas preocupações ao sumiço de seu Gato de Sapatilhas de Balé. Por onde andaria aquele gato e seu violino? Faziam-lhe muita falta, tanto um quanto o outro. O gato para que pudesse falar, e o violino para que pudesse ouvir.
O primeiro tom de vermelho a cobrir a cidade denunciaram o início do pôr-do-sol atrás das Colossais Muralhas de Vidro. A Rainha pôs-se em pé solenemente, aumentando aos poucos o som de sua cantiga.
Quando o último tom de violeta despediu-se da janela em que a Rainha se encontrava, ela cessou a canção. Ah, gato danado! Será que nunca mais vai voltar?
O som do violino tocando a Música de Nicolas às suas costas deu-lhe a resposta que procurava. Com um sorriso, a Rainha Desvairada de Renorah fechou a janela.

A Rainha Desvairada de Renorah

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 23:17

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

[Comunicado Extraordinário no Reino de Renorah]

Aos oitenta e nove dias do vigésimo primeiro ano da era de Sol, a Rainha Desvairada do Reino de Renorah vem a público anunciar o desaparecimento de seu Conselheiro Real, o Gato de Sapatilhas de Balé.
Qualquer informação que possa levar ao encontro do Conselheiro será recompensada com 500 mil Applausus, a moeda corrente do Reino de Renorah.
As informações devem ser enviadas ao último tom púrpura do pôr-do-sol para a janela do quarto da torre mais alta do castelo de mármore ao centro da capital do reino das Colossais Muralhas de Vidro.

Atenciosamente,

A Rainha Desvairada de Renorah

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 23:49

Sábado, Novembro 08, 2008

[Vida Cigana]

Pronto. É só eu começar a me acomodar em algum lugar que começa, lá bem no fundo das profundezas da minha alma, que me vem aquela antiga vontade de mudar, virar tudo de cabeça para baixo e começar do zero novamente.

O pior é que as mudanças são cada vez maiores. A primeira vez que eu me lembro de ter tido esta vontade foi... vejamos... provavelmente quando o útero da minha mãe começou a ficar um lugar muito chato e apertado para se morar e eu resolvi nascer.
Depois disso eu tinha uns 3 anos quando decidi que ser filha única era muito chato e sem graça, e resolvi pedir uma irmãzinha para meus pais.
A partir daí eu dei uma acalmada. Talvez tenha sido a mudança radical da maior para a menor cidade do Brasil que me tenha dado uma falsa sensação de eterna mudança. Como se isso fosse possível em Águas de São Pedro.
Enfim, fora as mudanças semanais da posição dos móveis no meu quarto, só voltei a mudar novamente quando fui levada para Goiânia. Aí baixou o capeta, as roupas foram ficando cada vez mais pretas, até por fim eu resolver pintar o cabelo (de preto). Foi um êxtase. Por cerca de um ano aquilo foi a mudança mais maravilhosa que eu já havia feito.
Mas tudo uma hora cansa. Com o cabelo não foi diferente, cansei de pintar e resolvi deixar o loiro natural crescer e partir para mudanças em outras áreas da minha vida.
Decidi finalmente que era hora de beijar. Oras, uma hora eu tinha que entrar para a vida agitada e beijoqueira dos adolescentes, né? Pois bem, beijei. E beijei de novo. E outra vez. Mas desta vez enjoei rápido; comecei a namorar.
E agora tomo um fôlego bem longo para contar resumidamente todas as mudanças nos últimos dois anos e dez meses desde que embarquei neste namoro:

- Saí da casa dos meus pais
- Mudei de cidade
- Fui morar com meu namorado
- Me tornei menos arrogante, mais sociável e levemente mais tolerante
- Mudei de cidade
- Fui morar com meu namorado na casa de alguém que eu nem conhecia
- Fui morar com meu namorado numa casa só nossa
- Tive cinco meses vivendo sem lar, pulando de casa em casa até resolver sair do país
- Vim morar na Nova Zelândia
- Fiquei numa fazenda cheia de vacas (é, aqueles animais que fazem "Muuuu!" - digo isto porque eu mal sabia) e pessoas que eu mal conhecia
- Voltei a falar com uma amiga de infância. E fui morar com ela (e com meu namorado, e com o pai dela) numa casa numa vila
- Comecei a trabalhar

E agora, um mês desde a última mudança, começo a sentir novamente essa vontade absurda de mudar. Mas o quê?

...

Bom, só sei que vou-me embora da Lan House antes que gaste todo meu salário e mude este blog para o blogspot.
O que não é uma idéia descartada.

por uma cigana, aí...

P.S.: Só agora vi que o template fica horrível em monitores quadrados...

P.S. ²: A filha da puta da alemã que tá usando o PC que eu precisava usar não sai nem por decreto!

P.S.³: E eu tô morrendo de fome.

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 03:17

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

[O Método Científico]

A incurável “doença” da escrita
Impulso que leva uma pessoa a escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e nem sempre gera talentos


Nos últimos anos a tecnologia possibilitou identificar no cérebro as regiões responsáveis por muitas funções intelectuais. Mas será possível aperfeiçoar esse conhecimento? Será possível identificar, por exemplo, uma área responsável pelo impulso que leva uma pessoa a escrever?

Esta foi a pergunta que se fez a neurologista americana Alice Weaver Flaherty, da Universidade Harvard, e que procurou responder no livro The midnight disease: the drive to write, writer’s block, and the creative brain (A doença da meia-noite: o impulso para escrever, o bloqueio do escritor, o cérebro criativo). Sua motivação era, antes de mais nada, pessoal. Pouco tempo depois de dar à luz gêmeos prematuros que em seguida faleceram, ela sentiu um desejo irresistível de escrever, e sobre qualquer coisa *. Um ano depois, novo parto; de novo gêmeos, que desta vez sobreviveram, mas de novo o incontrolável impulso da escrita.

Hipergrafia é o termo médico para descrever essa situação, conhecida há muito tempo: o poeta romano Juvenal falava, no primeiro século d.C. da “incurável doença da escrita”. Recentemente constatou-se que a hipergrafia é freqüentemente desencadeada pela epilepsia do lobo temporal, e que às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão, sendo que os antidepressivos conseguem “estancar” o fluxo verbal. O impulso para escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em idéias “editadas” pelos lobos temporais. Alguns portadores de hipergrafia tornaram-se famosos. O pastor americano Robert -Shields manteve, de 1972 a 1997, diários que retratavam sua vida minuto a minuto e que encheram 94 caixas de papelão num total de 75 mil páginas, o suficiente para dar uns 4 mil livros de porte razoável **. Virginia Ridley, da Geórgia, escreveu menos, 10 mil páginas, mas o seu texto foi mais útil: quando ela morreu de forma misteriosa, serviu para absolver o viúvo, acusado de assassinato (problema deve ter tido a polícia para ler tantas páginas).

E também existem escritores prolíficos, aqueles que escrevem muito. O que não é necessariamente um sinal de talento ***. A lista dos autores mais produtivos do mundo inclui nomes absolutamente desconhecidos para a maioria dos leitores, como o da sul-africana Mary Faulkner, que, diferente daquele outro Faulkner – o William – não ganhou o Nobel mas está em primeiro lugar na lista de recordes do Guiness, como autora de 904 livros; Lauran Paine, autor de 850 publicações; e Prentiss Ingraham que publicou 600 obras, das quais 200 sobre o cowboy Buffalo Bill. Mas na lista também estão os reputados Georges Simenon, criador do Inspetor Maigret (mais de 500 livros) e John Creasey, autor de conhecidos thrillers. Prolíficos foram também Charles Dickens, Honoré de Balzac e Victor Hugo. Segundo Shakespeare, autor razoavelmente fecundo, há mais coisas entre o céu e a terra do que alcança a nossa vã filosofia. O mesmo se pode dizer do processo criativo.


por Moacir Scliar

Comentários:

* - Sim, sei exatamente o que é isto...

** - Se alguém soubesse a vontade absurda que eu tenho de fazer isto...

*** - Isso realmente me preocupa.

Comentário aleatório: Caramba, a mulher tem dois partos de gêmeos consecutivos e acha que o estranho é a vontade de escrever?

por uma Tatiana que em breve terá internet, computador e muita inspiração para escrever. Espero.

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 00:56

Domingo, Setembro 28, 2008

[A Rainha Desvairada de Renorah]

- Não sei por que dizem que sou desvairada. Não sou desvairada. Certo que por vezes me perco em pensamentos, beirando em alguns momentos os mais terríveis desvairios. Sim, eu desvairio. Mas seria eu, por desvairar, uma desvairada? Não. Penso que não.
- E como tens certeza de que pensas, minha Rainha?
- Sei apenas que penso, fato consumado. Penso por vezes até demais. E vejo, também. Sei que não vejo as coisas que todos vêem, e por isto me chamam de desvairada. Digo, claro que posso enxergar, não posso?
- Não sei, minha Rainha. Podes?
- Oras, se te vejo, meu caro Gato...
- E como tens certeza mesmo de que estou aqui?
- E como tu, meu caro Gato, não és capaz de notar a sutil diferença entre o que digo e o que dizes? Digo que te enxergo, e ponto. Em momento algum digo que estás aqui ou mesmo que existes.
Neste momento o Gato de Sapatilhas de Balé pousou o violino que dedilhava distraído sobre o divã, dando uma profunda tragada em seu cachimbo de hortelã.
- É, tens razão.
Com uma gargalhada sonora, a Rainha Desvairada jogou os longos cabelos dourados para trás.
- Gato, não me respondas assim, com esta frase de encerrar qualquer questão. Criei-te pois estou exausta de discussões tolas e sem fundamento. Deves servir ao que foste proposto.
- Nada me foi proposto, minha Rainha. Criaste-me sem minha permissão, ou sem mesmo pedir a minha opinião sobre o fato de vir a ser criado.
- Estás te rebelando?
- Faço apenas o que queres que eu faça, minha Rainha. Se te respondi com uma frase de encerrar questões, foi porque assim o quiseste.
Tomando o cachimbo de hortelã das mãos do Gato de Sapatilhas de Balé, a Rainha começou a andar em círculos pelo quarto da torre mais alta do castelo de Renorah.
- Oras, caríssimo gato! E por que razão iria eu querer que me respondesses encerrando a questão?
- Talvez porque não fosse a questão que quissesses discutir, minha Rainha...
Um momento de silêncio se fez, enquanto a Rainha Desvairada de Renorah tragava o cachimbo de hortelã.
- E qual questão quereria eu discutir?
Com um gesto ousado, o Gato de Sapatilhas de Balé tirou o cachimbo das mãos da Rainha, espalhando-se preguiçosamente no divã enquanto dava uma tragada.
- Oras, minha cara Rainha... Qual é teu assunto favorito?
- Sabes bem que não tenho um único assunto favorito, querido Gato.
Olhando profundamente nos olhos azuis da Rainha, o Gato sorriu enquanto soltava a fumaça de seus pulmões.
- Sim, tens.
Jogando-se sobre o mesmo divã, a Rainha Desvairada riu-se novamente, jogando os cabelos dourados para trás.
- Ah, sim... Claro... Pois está claro para todos que tu me conheces muito melhor do que eu mesma...
- Escuso o fato de que, uma vez que sou criação de tua mente desvairada, eu te conhecer melhor do que ti mesma seria paradoxal...
- Ahá! - com um salto que assustou a si mesma, a Rainha olhou desafiadora para o Gato - Vês? Foges do assunto como o diabo da cruz! Tens medo de admitir que eu não tenho um assunto favorito?
Deixando o cachimbo de lado e inclinando-se na direção da Rainha, o Gato franziu as sombrancelhas.
- Teu assunto favorito, caríssima Rainha... - deixando a frase em suspenso, o Gato sorriu - É justamente não ter assunto algum.
O silêncio pairou no quarto. Por vários minutos a Rainha permaneceu estática e boquiaberta. Por fim, ela sentou-se novamente no divã, tragando o cachimbo.
- Toque a música de Nicolas, sim? E desta vez alto, para que se possa ouvir de Manskaoosin.
E, iluminado apenas pela luz da lua cheia que entrava pela janela do quarto da torre mais alta do castelo do reino das colossais muralhas de vidro, o Gato de Sapatilhas de Balé pôs-se a tocar.

A Rainha Desvairada de Renorah

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 06:15

Domingo, Setembro 21, 2008

[Bem-vindos a Renorah]

O pôr-do-sol em Renorah, o reino das colossais muralhas de vidro, era em absoluto um dos mais maravilhosos espetáculos que se poderia ver sobre a Terra.
Os raios do sol, batendo angularmente nas muralhas de vidro, eram refratados em todos os milhares de tons perdidos entre as sete cores do arco-íris. Uma a uma, as cores iam invadindo a cidade, colorindo as ruas e pintando as casas de paredes e telhados extremamente brancos.
E então alcançavam o castelo. Era o maior e mais magnífico castelo que os olhos humanos seriam capazes de enxergar. Construído havia muitas eras, o castelo de mármore se erguia imponente no centro matemático da cidade.
E era ali, no alto da torre mais alta do castelo, de onde se podia ter a melhor visão daquele pôr-do-sol, que se encontrava recostada na janela a Rainha Desvairada.
Com seus longos e rebeldes cabelos dourados soltos ao vento, a Rainha observava tranqüila o tom de azul que no momento cobria sua janela.
Ao seu lado estava seu único e fiel companheiro, o Gato de Sapatilha de Balé. Ele tocava baixinho em seu violino O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A música se encerrou no momento em que o último tom de violeta deixou a janela do quarto. A Rainha se voltou para o Gato, sentando-se a seu lado no grande leito.
- Mais algum pedido, minha Rainha?
Sorrindo, a Rainha olhou para um ponto não especificado na parede.
- Toque a música de Nicolas...
Obediente, o Gato pôs-se a tocar.

A Rainha Desvairada de Renorah

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 05:53

Sexta-feira, Agosto 15, 2008

[Disritmia]

Quisera eu ser capaz de traduzir em um conto ponto por ponto da história que me vem à mente.

É um homem. Não importa nome, idade ou tempo. Sei apenas que é casado. Casado é apenas por ser. Porque não há coisa mais imposta pela sociedade do que o casamento.

E há uma mulher. Não a casada com o já dito homem. Outra mulher, uma daquelas que nos vêm à mente quando pensamos em “mulher” no sentido completo. É bela, elegante, inteligente, independente. Veste-se de vermelho, impõe-se e – por que não? – fuma.

É esta mulher o completo oposto da casada. Boa dona-de-casa, mãe e esposa são as últimas coisas que ela sonha em ser. E, por isto, é julgada.

Há ainda a dona-de-casa, embora pareça que pouco tenha-se a dizer dela. Não que seja menos do que a outra mulher desta história, apenas não possuiu a ousadia da primeira. Pode ser tão ou até mais inteligente do que a mulher que fuma, mas jamais se permitiu mostrar ou escolher. E por isto não pode ser julgada.

E eis que o já previsto acontece. O homem fica de joelhos pela mulher que fuma.

Que seja bem dito, não se trata esta de nenhuma destruidora de casamentos ou algo do tipo. Ela o atrai naturalmente, sem ter a intenção. E por ele também se atrai. E se envolvem, e se apaixonam, e se amam. Nada poderia ser mais natural.

Há apenas uma cena que me vem à cabeça, e talvez a este ponto seja necessário dizer que o citado homem é um famoso compositor que há tempos passava pela mais terrível crise criativa de sua vida.

A mulher que fuma o inebria. O hipnotiza, o maravilha. Ela é a mulher definitiva, a mulher ideal de seus sonhos de poeta. Mas há ainda a mulher casada, aquela a quem ele recorre após uma noite entregue ao spleen, à bebedeira, aos desvarios. É a mulher casada que vem a ele com uma banheira de água morna em que ele pode curar sua ressaca. É ela a mãe de seu ou seus filhos.

A mulher que fuma não o cobra. Sabe que é por ele amada, sabe de seus problemas e suas necessidades. Compreende como ninguém a mulher casada e não a julga por assim ser. Sabe que há sempre um preço a se pagar, e às vezes este preço pode ser alto demais.

Mas como já foi dito, pode bem ser que a mulher casada seja ainda mais inteligente do que a mulher que fuma. E nada passa batido aos olhos de uma mulher que cura a ressaca de seu marido. Ela sabe da mulher que fuma, e chora quieta à noite enquanto espera que o marido retorne.

São dois homens. Há o pai-marido, sisudo, semblante sério, sempre ocupado em seus papéis, escrevendo na solidão de seu escritório. E há o homem-apaixonado, o homem que ama, que ri, que chora e que à mulher que fuma mostra seus escritos e nunca descarta sua opinião.

Agora sim, a cena que me vem à cabeça. Uma pequena apresentação deste famoso e isolado compositor, uma audiência para que ele mostre seus finalmente novos trabalhos. É com este dinheiro que ele sustenta mulher e filhos.

E há na platéia as duas mulheres. A esposa-mãe, quieta e triste em seu silêncio. A mulher que fuma, discreta em sua presença, sentada ao fundo embora que ainda com um belo vestido vermelho.

E o homem então se apresenta. Uma única canção. Triste, apaixonada, dolorosa. Há em seus versos a presença intrínseca e indisfarçável das duas mulheres ali presentes.

Enfim, pela primeira vez, os dois pares de olhos femininos, úmidos e melancólicos, se encontram. Assim permanecem por minutos que parecem horas. As duas então piscam lentamente, cumprimentam-se com um aceno de cabeças e separam o olhar com dois discretos sorrisos nas faces.

"Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia
Pra fugir do mundo

Pretendo também me embrenhar
No embaranhado
Desses seus cabelos

Preciso transfundir teu sangue
Pro meu coração
Que é tão vagabundo

Me deixe te trazer um dengo
Pra com um cafuné
Fazer os meus apelos

Eu quero ser exorcisado
Pela água benta
Desse olhar infindo

Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas
Dos seus olhos lindos

Me deixe hipnotizado
Pra acabar de vez
Com essa disritimia

Vem logo
Vem curar teu nego
Que chegou de porre
Lá da boemia"


(Disritmia - Zeca Baleiro)

por Tatiana

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 08:21

Sexta-feira, Agosto 08, 2008

Eu estava mesmo com vontade de escrever um diário de bordo organizado, com os acontecimentos em ordem cronológica. Mas, querem saber? Nem sempre acordo com aquela boa vontade de escrever sobre o que anda acontecendo por aqui. Às vezes tenho apenas vontade de escrever, delirar um pouco, sair da rotina. E, na verdade, isso é muito mais coerente com o título e o intuito deste blog. Que se dane minha lua em Virgem, meu sol em Leão continua sendo mais forte, ainda mais estando nós todos passeando por minha casa astral. Pois que fico mais velha em uma semana, e não me importa mais nada.

[Mais uma sobre a loucura]

Existem momentos na vida em que a loucura tem muito mais sentido em ser do que a mais pura lucidez.
Fiquei tão lúcida que me perdi em meus pensamentos.
Ah, que falta me faz enlouquecer...
Gosto de enlouquecer por alguns momentos. Parar e me perder em mim mesma.
E no mundo.
Antigamente, há não muitos anos, eu era possuidora de uma incrível capacidade de enlouquecer pelo tempo que bem entendesse. E me perdia em pensamentos sem sentido, por mais sentido que eles pudessem fazer. E me punha a apreciar a beleza das coisas - há algo mais insano do que perceber a beleza que uma única palavra pode ter?
Sim, sim, as palavras... Sempre foram elas as culpadas. As palavras que me apaixonavam, as paixões que me enlouqueciam, as loucuras que me perdiam.
Será que tudo pode ser mesmo assim escrito conjugado no pretérito imperfeito? Talvez melhor fosse usar o futuro do pretérito. "Apaixonaria"... "Enlouqueceria"...
Já é clara a minha paixão pelas palavras. O quanto elas me atraem, me hipnotizam, me excitam.
E talvez, às vezes - mas só às vezes -, eu enlouqueça sem ter a consciência de haver enlouquecido.
Será mesmo que um louco sabe o quão louco é?

por Tatiana

(Obs.: Acabei cedendo à minha antiga compulsão por criar blogs e fiz um com o intuito de ser realmente o meu diário de bordo. Ainda não postei nada novo lá, mas é bom que saibam o endereço: Diário de Bordo)

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 23:56

Sábado, Julho 26, 2008

Nunca quis, juro mesmo que eu nunca quis transformar este blog num diário. Mas, visto que a alternativa é deixar este blog morrer, prefiro contar o que anda acontecendo por aqui.
Sim, já faço isso no Fotolog. Mas, como explicar?... Hum... Aqui me sinto mais à vontade para falar sobre tudo.
Se o assunto se tornar muito maçante e vocês começarem a bocejar, "Alt+F4" é a serventia da casa.
A culpa não é minha por estar passando pela mais longa crise literária da minha vida. Juro, eu até tento pegar o livro que estou lendo (e, mêu... É Kafka!!! Kafka!!! Tipo... como eu posso não querer ler Kafka???), mas meus olhinhos começam a arder e me dá sono. Se os sintomas persistirem por mais tempo, vou procurar um especialista. Ou uma biblioteca.
Ah, sim, caso isso não faça o menor sentido para você, querido leitor que nunca passa por aqui, tente escrever algo quando se está há uns dois meses sem ler nada.
Agora sim, iniciando meu diário de bordo (sim, altamente inspirado pelo blog da Fê).


[Diário de Bordo - primeira parte]

Como contei aqui neste blog, estou do outro lado do mundo. Nova Zelândia, terra dos Kiwi-birds, das Kiwi-fruits e dos Kiwi-people. Não é falta de imaginação deles, é falta de variedade mesmo.
Cheguei no dia primeiro de junho, depois de quatorze horas chatíssimas de vôo. Tá bom, tá bom... Não foram tão chatas assim... Vim metade do tempo conversando com o Samir, um cara de Brasília que estava vindo passar quinze dias em Auckland. E que pegou meu MSN e nunca me adicionou... Enfim...
Das quatorze horas de vôo, duas (ou três?) foram de São Paulo a Buenos Aires. Graças às nuvens, não pude ter uma visão das luzes de São Paulo (São Paulo, São Paulo... minha cidade-luz...) como pensei que teria. Mas vi Buenos Aires. E o que posso dizer é que é uma cidade quadrada. As luzes são quadradas, os quarteirões são quadrados, os bairros são quadrados. Tudo parece milimetricamente medido para não deixar nada fora do quadrado ("ado... a-ado... cada um no seu quadrado..."). Tenho pra mim que deve haver virginianos demais naquela cidade. Mantenho distância.
Desci no aeroporto de Buenos Aires para enfim pegar o vôo para cá. Passei pelo raio-x novamente, mostrei meu passaporte para um simpático tiozinho que me deu "Bom Dia" em português, fui me encaminhando para o portão de embarque... Êpa! Que é isso? Querem revistar minha mochila? Tá, tudo bem... Tudo em nome do protocolo... Abro minha mochila, uma argentina de nariz empinado (pleonasmo?) dá uma olhada por cima e pergunta num portunhol desgraçado "Usted tiene algun baton?". Ao que eu prontamente (e inocentemente) abro minha bolsa para mostrar meu gloss cor-de-rosa de lojinha de 1,99 que já estava pela metade. A argentina de nariz empinado (pleonasmo... pleonasmo...)
simplesmente pega meu gloss e tira da bolsa. Até aí, tudo bem... Afinal, era só 1,99 e já estava acabando. De repente, ela vê algo a mais na minha bolsa, enfia a mão dentro dela e sai com a minha base 3 em 1 da Avon que eu tinha acabado de comprar por 30 reais da Tia Estela. Protesto "Mas é só uma base!", e ela "Usted tiene alguna sacola?". Numa última tentativa, abro aquela sacolinha plástica que guardo na carteira para casos de emergência, ao que ela responde "No, no... Zip-loc?". Minha esperança se esvai, fecho minha bolsa e saio revoltada com a argentina de nariz empinado (pleon... tá, já falei...).

Finalmente, sem gloss de 1,99 e base 3 em 1 da Avon, embarco no vôo número qualquer coisa da Aerolíneas Argentinas (também conhecida como "Viação Piracema" ou "aviões com goteira"). Doze horas, um enjôo, duas vomitadas e muita Coca-cola depois, aterrisso em Auckland, ilha Norte da Nova Zelândia. Feliz, feliz... Feliz o caramba, agora é que o bicho pega e a porca torce o rabo. Passar pela alfândega.
Muito bem, Tatiana... Muito bem... Calma, isso é normal, isso é normal... Coração na boca, mochila nas costas e bolsa com certos itens de maquiagem faltando, mostro meu passaporte à mulher. Ela pergunta o que vim fazer aqui. Turismo, vim passear durante as férias. Quem pagou a viagem? Meu pai, oras...
Fico esperando ela desconfiar da reserva fajuta de hotel, me mandar para a salinha da imigração para responder mil e uma perguntas, às quais eu certamente não saberia responder, entraria em desespero e seria mandada de volta para o Brasil em mais 14 horas de viagem estressante e... Ela carimba meu passaporte.
Pego os papéis, guardo tudo na mochila (ou tento, minhas mãos tremem tanto que cai tudo no chão). Vou até a esteira de bagagens, pego a minha (depois de muito esperar na esteira errada). Então, depois de quatorze horas, entro finalmente em solo Neo-Zelandês. Mas eu estava na Ilha Norte e precisava pegar ainda mais um vôo até chegar em Christchurch, onde finalmente meu namorado estaria me esperando para irmos para casa.

Procuro dentro do aeroporto o guichê da Qantas. Chego para a mulher e entrego o ticket eletrônico. Ela olha, olha, sorri para mim e diz algo muito parecido com "mistic". Eu "Céus, o que é que místico tem a ver? Será que eles acreditam nessas coisas por aqui?". Pergunto novamente, ela aponta para uma placa e diz: "You have to go to 'do mistic' airport". Eu "Tá que que 'do mistic' tem a ver com as calças?". Olho para onde ela aponta. "Domestic Flights". Ahhhhhh!!!! Agora tudo faz sentido... Ela manda eu seguir a linha branca no chão, eu ponho a mala num carrinho e vou. E vou. E vou. E vou. E continuo indo. E nada de aeroporto doméstico. E vou. Até que, depois de muito andar no frio de quem acabou de chegar de um país tropical em um outro quase dentro do Círculo Polar Antártico, encontro o tal do aeroporto doméstico.
Despacho a mala, pego minha mochila e subo as escadas. Passo pelo raio-x e... Quê? Querem xeretar minha mochila, de novo??? Bom, pelo menos agora não tem mais nada com que eles possam encrencar e... Quê? Meu chaveiro? Qual o problema com meu chaveiro? Sim, ele tem o formato de um shuriken, mas meu tio trouxe do Japão, não tem problema nenhum e... Ah, sim... Eles acham que eu posso matar alguém com o meu chaveiro. Segurando o riso por imaginar a cena, pergunto o que posso fazer. Ela diz para eu despachar minha mochila. Ótimo, só isso? Pelo menos não vão roubar meu chaveiro... Desço as escadas para despachar a mochila e... Excesso de peso. Rio na cara do tiozinho simpático do guichê, digo que tenho que despachar a mala por causa de um chaveiro. Ele olha para o chaveiro, olha para mim e diz "Dá o papel da mala que você já despachou que eu ponho seu chaveiro lá dentro". Quê??? Jura??? Feliz da vida, entrego o chaveiro e o papel da mala pra ele. Negócio resolvido.
Subo novamente as escadas, passo (novamente) pelo raio-x (não, ninguém encrencou com o meu pacote de absorventes... E olha que eu podia matar alguém com aquilo, hem?) e entro na sala de embarque. Vazia. Sento e fico esperando. Ansiosa demais para dormir. Espero, espero, espero... A sala começa a encher. A sala enche. Levanto da minha cadeirinha para esticar as pernas e quando volto não tenho mais cadeira. Sento no chão. Um casal joga dominó do meu lado. E eu espero. O outro vôo, que deveria sair meia hora depois do meu, sai. Ótimo, pra piorar meu vôo atrasa. A essa hora, o Ju já está esperando em Christchurch. Quase na hora em que eu deveria estar aterrissando, meu vôo sai. Mais uma hora e meia de vôo. Juro que depois dessa, não quero ver avião pelos próximos seis meses.

Chego em Christchurch, pego minha mala e de repente sou atacada por alguém que me abraça por trás. Sim, o Ju. Beijos, beijos, beijos e mais beijos. Vamos para o carro, o Eltoni nos deixa no hotel.
Sim, no hotel. Minha primeira noite na Nova Zelândia será em grande estilo. Suíte deliciosa, cama King Size, banheira. Aproveito tudo, inclusive a comida não-lá-muito-saborosa-mas-tá-valendo. Passeio em Christchurch, passo frio. Delícia.

E para a primeira parte do meu diário de bordo, já escrevi até demais. Sabe como é, às vezes me empolgo.
Volto em breve com a segunda parte.
Aos que leram até o fim, aguardem.

Tatiana Leutwiler

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 22:58

Domingo, Junho 29, 2008

[Um céu de Monet]

Estava particularmente triste naquela manhã. Não sabia o motivo e não conseguiria responder se lhe fosse perguntado. Acordara triste, com a impressão de que o dia ainda não começara.
Vestiu-se mecanicamente, como se suas mãos soubessem sozinhas o caminho de cada peça de roupa e ela não precisasse guiá-las. Andou de meias pela casa procurando algo que não sabia o que era.
A verdade é que aquela manhã estava diferente. Ela olhava ao redor tentando identificar o motivo, qualquer que fosse. Procurou por algo fora de seu lugar, mas tudo o que pôde ver foi a casa em perfeita ordem. Todas as almofadas sobre o sofá, o controle remoto da televisão colocado corretamente sobre a mesinha de centro, o tapete sem pontas viradas. Na cozinha alguém lavara e guardara toda a louça em seu devido lugar. Enfim, nada parecia fora do que deveria.
Acendeu as luzes do corredor. Era uma manhã escura, como todas as outras de inverno. O sol demorava a nascer, mas seu relógio biológico impedia que ela acordasse mais tarde. Olhou pela janela e muito pouco pôde ver além da camada branca sobre a grama. Nevara durante a noite. Bom, ao menos isso explicava ela ter acordado de madrugada para ligar o aquecedor.
Mas ainda não sabia o motivo de sua tristeza. Olhou para as casas vizinhas, e elas permaneciam no mais absoluto silêncio.
Resolveu sair.
Vestiu suas luvas, escolheu o primeiro cachecol que pôde alcançar, pôs seu casaco e enfiou de qualquer maneira suas botas de andar na neve. Duvidava que houvesse algum comércio aberto, mas pegou algumas notas a fim de comprar pão, caso encontrasse. Fechou a porta da frente e deu uma respirada funda antes de sair andando.
A manhã fria e escura aprofundou a tristeza que ela sentia, beirando à melancolia. Não havia uma única pessoa na rua. As luzes dos postes, acesas, iluminavam pobremente o que o céu escuro recusava-se a iluminar. Ela olhou ao redor, além das casas. Ao longe não havia horizonte, o negro do céu engolia o chão branco em algum ponto que ela não era capaz de definir.
Estacou os passos. Chegara a um pequeno parque destinado às crianças que saíssem da escola em frente. Nenhum poste era capaz de iluminá-la ali.
Sentou-se num balanço, procurando ao redor algo que pudesse ver. Mergulhou de olhos fechados em pensamentos sem importância por vários e vários minutos.
Voltou à consciência quando sentiu a claridade invadir suas pálpebras cerradas. Abriu os olhos devagar, evitando ser ofuscada. E num minuto sua melancolia deu lugar ao embevecimento.
O sol começava a lutar para nascer. Ela podia sentir as contrações do céu, enquanto a curva das montanhas começava a se abrir. A manhã ofegava, as nuvens de branco tentavam a todo custo ajudar naquele parto. O sol começou a aparecer silenciosamente. Lentamente, foi-se espalhando o vermelho-sangue sobre o lençol azul-celeste. Sobras de placenta amarela davam o ar de sua graça na mistura de fluidos coloridos que se formava. As nuvens vestiam-se de todas as cores que poderiam querer, preparando-se para as boas-vindas ao recém-nascido. O sol, por sua vez, saía de seu invólucro escuro atrás das montanhas. Era já quase parte deste mundo. As nuvens começaram a dançar, contorcendo-se em formas quase lúdicas para então se estenderem em mil formas, alinhadas e coloridas como se houvessem sido colocadas ali por algum pincel na gigante tela. Era enfim nascido o sol.
Ela permaneceu mais alguns minutos sentada naquele balanço, ouvindo a cidade acordar para receber o sol. Então se levantou suavemente, como se tomasse todas as precauções para não estragar aquele quadro.
Caminhou para casa com um sorriso nos lábios. Agora, sim, tudo estava em seu devido lugar.

por Tatiana

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 18:30

Segunda-feira, Junho 16, 2008

[Uma Breve Discussão]

E novamente aquela sensação terrível.
Não deveria falar tanto sobre assuntos tão subjetivos aqui, não é a intenção deste blog. Mas azar (ou sorte) de vocês. O blog é meu e escrevo nele sobre o que eu quiser.
É. Um pouco daquela velha necessidade de me sentir no controle. E outro tanto daquela já conhecida mania de falar sobre mim.
Agora agüentem.

Porque a dúvida dói às vezes mais do que a certeza. Porque a dúvida corrói, queima e destrói aos poucos, pedacinho por pedacinho.
E porque eu sou paranóica, obcecada e compulsiva. Não necessariamente nesta ordem.
Paranóica porque a dúvida existe. Obcecada porque todos meus pensamentos se voltam para a resposta. E compulsiva porque não consigo desistir.
"Just because you're paranoid don't mean they're not after you"

- Chega. Não há motivos para querer a resposta.
- Além de acabar com esta dúvida, não é?
- Mas você se tortura com esta dúvida. Desista, esqueça. Não há nada para saber, não sabe?
- Se soubesse não haveria dúvida.
- Mas ontem você disse que acreditava.
- Mas hoje já não estou tão certa assim.
- Por quê?
- Porque "estamos todos errados". Eu sei porque estou errada. E ele?
- Ele o quê?
- Qual seu erro? É a mentira?
- Não vê que ele faz isso só para provocar? Só quer deixar você exatamente como você está.
- Então parabéns, ele conseguiu.
- Algumas vezes você me deprime, sabe? Essa sua mania de sempre achar que tem algo errado.
- Eu não "acho". Ele disse.
- Para provocar, oras!
- Tem certeza?
- ...
- Vê? Nem você tem certeza.
- Mas não me torturo com a dúvida.
- ...
- Pare com isso. Não há futuro, apenas mais e mais dúvidas, mais e mais sensações terríveis. Você quer voltar a ser como era antes?
- Não. Aquilo foi horrível. E isso também é. Mas aquilo passou porque não restaram dúvidas.
- Ou porque você não se torturou com elas.
- Ah, chega! Não agüento mais você falando na minha cabeça! Deixe eu ficar com a minha dúvida em paz!
- Você jamais ficará em paz com esta dúvida.
- Por isso preciso saber.
- Não. Por isso você quer saber. Você não precisa saber e sabe disso.
- Então você. Você me diz agora: por nenhum momento a dúvida passa pela sua cabeça?
- Claro que passa. Mas eu não me deixo dominar por isso.
- E se tudo for mentira? E se tudo em que você acredita não passar de pura e deslavada mentira?
- Você sabe tão bem quanto eu que não é mentira.
- Será que sei?
- Vê? Você mesma cria minhocas para colocar na sua cabeça! Esqueça. Pare de pensar na dúvida. Agarre-se ao que você tem certeza.
- Nem sei mais se tenho alguma certeza.
- Agora é você que me irrita, sua emo depressiva do caramba... Não agüento mais ser seu muro de lamentações. Às vezes você consegue ultrapassar o limite da chatisse.
- Então me deixe sozinha!
- Você sabe que eu sempre estarei por aqui.
- Você precisa ser sempre tão racional?
- Só quando você resolve ser tão passional.
- ...
- ...

por mim e mim mesma

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 18:33

Sábado, Junho 07, 2008

[Coisas (não-tão) simples da vida]

Porque são pequenas coisas que me fazem feliz. Pequeninos flocos de neve, por exemplo.

Diretamente do outro lado do mundo. E não digo isto no sentido figurado, como quem diz "Oh, cruzarei sete mares em busca de meu amor!".
Não. Estou mesmo do outro lado do mundo, muito embora isto seja absolutamente relativo pois eu não estou do outro lado do mundo em relação a mim mesma, estou?
Mas, sim, em relação a você, caro e assíduo leitor, eu estou do outro lado do mundo. A não ser, é claro, que por uma incrível e adorável peça do destino, você esteja perdido pela terra dos Kiwis.
Ah, os Kiwis... Os adoráveis Kiwis... Tão singelos e meigos em suas casinhas de madeira, com carpete no chão e vasos de flores na porta...
Sim, está óbvio que me refiro aos Kiwis humanos, e não aos animais e menos ainda às frutas.
Certo, certo... Volte para a Terra, Tatiana... Você está perdendo comunicação com a Central.
Está bem, está bem... partamos então do princípio de tudo (e não me refiro aqui à célebre questão sobre o princípio da Vida, o Universo e Tudo Mais).
...
Está claro que precisarei de alguns minutos para colocar os pensamentos em ordem, não?
Certo. Contem comigo.

Um...

Dois...

Três...

...

Welcome to New Zealand!

Em outras palavras, estou escrevendo diretamente da Nova Zelândia. Mais precisamente, de um notebook sobre uma cama colocada numa sala por causa da presença indesejável de aranhas no quarto, numa casa em uma fazenda próxima a Rakaia, a cerca de uma hora de Christchurch, a maior cidade da ilha sul da Nova Zelândia.
Sim, eu realmente estou na Nova Zelândia.
Não, ainda não vi Legolas e Aragorns andando por aí. Mas não perdi as esperanças.

Mas... Hã? Como assim, o que estou fazendo na Nova Zelândia??? Por que não avisei, não mandei sinal de fumaça nem deixei a menor palavra por aqui mencionado tal fato?
Oras...
Não sei. Por que tudo precisa ter uma explicação?

Fato é: estou aqui, do outro lado do mundo em relação a você, vendo neve e montanhas do quintal da minha casa.
Legal, né?

É.

Mas, sabem?
Não tenho muito mais para comentar.
Pelo menos não agora.
Já repeti tantas vezes e para tantas pessoas as mesmas informações que simplesmente não tenho mais o que dizer por aqui.
Portanto, só.

por Tatiana

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 06:56

Quarta-feira, Maio 21, 2008

[Memórias de Calvário]

Era uma vez uma doce e meiga garotinha loirinha, magricela e dentuça. Ela tinha sete anos quando uma amiga foi brincar em sua casa e elas decidiram brincar de pular na cama. A menina da nossa história, caros leitores, estava com receio de pular, mas sua amiga a obrigou. Resultado: ela bateu com a cara na janela e estourou a boca.
E assim começou sua longa e dura jornada de visitas ao dentista.
Aos oito ela começou a usar aparelho móvel. Aos dez, o fixo. cinco anos depois, e sete após o início de nossa jornada, nossa menininha finalmente retirou os ferros dos dentes. Eles estavam retinhos, perfeitos, cada qual em seu devido lugar. Mas o dentista da nossa menininha, caros leitores, não colocou nenhum tipo de ferrinho para impedir que os dentes voltassem a ficar tortos. Ele apenas a alertou que deveria realizar uma cirurgia para extrair os sisos, que ainda nem haviam nascido.
Não é preciso dizer que nossa menininha recusou.
Antes que comece qualquer tipo de julgamento quanto à decisão da nossa menininha, talvez seja necessário acrescentar que ela, durante a longa jornada de sete anos de idas e vindas mensais no consultório odontológico, havia sido submetida à extração de praticamente todos seus dentes-de-leite e dois dos permanentes. Após tantos procedimentos, alguns podem julgar que ela deveria estar habituada, mas fato é que a cada extração nossa menininha se sentia mais e mais traumatizada. Ela odiava dentistas desde a mais remota memória que conseguia extrair de sua cabecinha, quando, na tenra idade de três ou quatro anos, sua mãe a levava ao dentista para aplicações de flúor.
Foram estes os motivos que a levaram, então, a recusar abortar os sisos quando assim lhe foi sugerido. Ela ainda tinha a vã esperança de que haveria espaço em sua arcada dentária para tais dentes. Tola e pueril menininha.
Eis que, passados enfim quase quatro anos, nossa menininha viu seus dentes outrora tão bem consertados pelo uso de aparelhos se deformarem, encavalarem e entortarem até chegar ao extremo que ela jamais imaginara.
Foi uma olhada no espelho que a fez decidir: sim, agora extrairia os sisos. Deixaria os traumas, medos e revoltas para trás e, estoicamente, andaria passo a passo rumo à cadeira de dentista para, de uma vez por todas, livrar-se deste mal.
E foi de cabeça erguida que ela entrou no consultório.

pela menininha da história

Desvairie Comigo
Desvairado por Mim, em 00:23